Mês: agosto 2018
CARTA DE UM PAI PARA O FILHO
Carta de pai para filho – Marcos Piangers
Quando você tiver minha idade não tenha medo. O mundo é um lugar bom, apesar de tudo.
Ainda não inventaram outro lugar onde as pessoas se abraçam. Ainda não inventaram outro lugar em que a gente pode andar de bicicleta e conversar. Em que a gente pode deitar na grama. Em que a gente pode dizer eu te amo.
É claro que há os que não acreditam na beleza do mundo. Tem aqueles que estão presos no trânsito. Tem aqueles que se molharam com a chuva. Tem aqueles que perderam o ônibus. Tem aqueles que reclamam do chefe. Tem aqueles que nunca tem tempo pra nada. Tem aqueles que estão sempre precisando de mais dinheiro.
Mas, também tem aqueles que estão ouvindo jazz. Tem aqueles que acham a chuva um milagre. Tem aqueles que decidiram caminhar nesse dia. Tem aqueles que começaram o próprio negócio. Tem aqueles que tiraram o dia de folga. Tem aqueles que não precisam de mais nada para ser feliz.
Há os que olham ao redor e falam para si mesmos: “se isso não é agradável, eu não sei o que é”.
Tem coisas que a gente não controla, meu amor. O clima, os outros, o tempo. E isso é a beleza da vida. O improvável. O imprevisível.
Quando você tiver minha idade não tenha medo. Eu espero estar do seu lado, mas se não estiver não tenha medo.
Lembre-se que existem abraços e amigos e música. E existem as crianças.
Você foi uma criança linda, meu amor. Você foi meu sol, um sopro de esperança no meu coração. Lembre-se sempre dessa criança.
Faça coisas boas. Arrume o sofá. Assista um filme. Faça algo inesperado. Diga o que você sente. Abrace as pessoas. Me mande uma mensagem amorosa.
O mundo é um lugar bom, apesar de tudo. Porque ainda não inventaram outro lugar em que você existe.
AMAMENTAR NÃO É UM ATO DE AMOR.

Primeira vez que ouvi minha mãe pronunciar tal frase, estranhei.
Eu havia ido buscá-la após uma entrevista para um programa da Rede Mulher e notei que ela estava aborrecida. Perguntei o que havia acontecido e ela disse:
“Eles fizeram de tudo para que eu afirmasse que amamentar é um ato de amor. Mas eu nunca direi isso. Amamentar não é um ato de amor”.
“Mãe, como assim?” Por um instante, achei que minha mãe estava virando casaca e negando o trabalho de toda uma vida.
Minha mãe foi uma das grandes batalhadoras do aleitamento materno no Brasil e no mundo. Docente da Faculdade de Enfermagem da USP de Ribeirão Preto, ela ajudou a formar núcleos de aleitamento por todo o país, colocou o assunto na pauta da formação de profissionais, escreveu livros, cartilhas e foi conselheira da OMS sobre o tema, para os países de língua latina.
Eu cresci com mulheres batendo à nossa porta para “desempedrar” as mamas e aprender a dar de mamar. Com alunas que a procuravam para orientar teses de mestrado. Era peito e recém-nascido para todo lado. Aquela frase, dita assim de repente, me pegou totalmente de surpresa.
“Amamentar é optar por dar o melhor alimento ao bebê. Não tem nada a ver com amar. Se fosse assim, poderíamos dizer que os pais amam menos seus filhos? Eles não amamentam. As mães adotivas também não. Ou as mulheres que fizeram plástica. Ou as mães que precisaram desmamar seus bebês para trabalhar…será que todos eles amam menos seus filhos porque não amamentam?”
“Mas é o que a gente sempre escuta…que amamentar é dar amor”, argumentei.
“Pois é…mas amamentar é dar alimento. O melhor alimento. O mais completo e o que melhor nutre o bebê. Já amar é outra coisa. As pessoas que confundem as duas coisas, sem querer, estão fazendo um desserviço ao aleitamento, pois as mães ficam mais ansiosas, culpadas e cheias de temores. Todos sabem que uma mãe tranquila amamenta melhor. E como uma mãe pode amamentar tranquila se ela acha que estará dando menos amor para seu bebê se fracassar? Olha o peso deste sentimento!
Quanto mais desmistificarmos o aleitamento, melhor. As sociedades que amamentam melhor, são aquelas que o fazem naturalmente, como parte de uma rotina. O bebê está com fome, a mãe dá o peito. Simples assim. Quase mecânico. Ninguém pensa muito nisso.
E as mulheres que por algum motivo não conseguem amamentar, precisam parar de sofrer. De sentir culpa. Existem muitas outras formas delas darem o suporte psicológico que o bebê precisa. É óbvio que o aleitamento é a melhor escolha, mas a partir do momento que esta escolha não pode ser feita, a mãe deve parar de sofrer.”
Essa era a minha mãe. Cheia de ideias próprias. Cheia de amor. Uma batalhadora da maternidade sem culpa.
Texto: Tais Vinha
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